O Gigante Particular - A privatização do Green Investment Bank Postado em: 03/05/2016 - 12:29

Pouco se sabia sobre mudanças climáticas até a década de 1980. Como uma das diversas dúvidas sobre o impacto da relação ‘homem-natureza’, a questão da possível alteração climática global se difundiu mundialmente de forma muito rápida. Inevitavelmente, esse assunto ganhou espaço em discussões internacionais e, a partir de 1990, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) começou a publicar periodicamente estudos específicos afirmando não apenas que as mudanças climáticas são realidade, mas também que possuem relação direta com as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de atividades antrópicas, sobretudo pela queima de combustíveis fósseis.

Até então, a queima de combustíveis fósseis era relacionada apenas ao desenvolvimento econômico, mas o risco climático já se demonstrava uma possível ameaça dessa atividade. Então, após muitos encontros internacionais a fim de estabelecer mecanismos para controlar as alterações climáticas, ficou claro que a melhor alternativa para evitar o aumento da temperatura média global era substituir a queima de combustíveis fósseis por outras formas de geração de energia que não emitissem GEE.

Certamente esse foi um grande desafio mundial e foi nesse cenário e com essas demandas que, em novembro de 2012, o Reino Unido criou o Banco de Investimento Verde (GIB, sigla em inglês), instituição para promover o financiamento de iniciativas de energias renováveis. É provável que o GIB não tenha sido criado para atender apenas às demandas das negociações internacionais sobre o clima (como o protocolo de Kyoto, por exemplo). A questão econômica e a preocupação com a imagem do país também foram pontos importantes, com viés mais estratégico. Mas, com certeza, as questões climáticas em pauta foram as grandes protagonistas para que essa iniciativa fosse, de fato, implantada.  Com o passar dos anos, os investimentos do GIB se demonstraram eficientes e as atividades provaram ser rentáveis.

Nos encontros internacionais, as negociações para firmar um acordo global de redução das emissões continuavam a topo vapor. Países do mundo todo vinham contribuindo para escrever um único texto que pudesse nortear as ações das próximas décadas. Até que, em novembro de 2015, a COP 21 (conferência das partes ocorrida na França) apresentou como resultado o chamado “Acordo de Paris”, em que foi definida, em comum acordo de 196 países, a ambição de manter o aquecimento médio global abaixo de 2°C.

O que era apenas um desafio passa a ser agora um compromisso global. Mais do que nunca o mundo precisa de investimentos em tecnologias de baixo carbono. Então o que fazer para atender a essa demanda? Por onde começar? Se uma organização precisa reduzir suas emissões de GEE para reduzir o aumento da temperatura global, ela pode consumir menos combustíveis fósseis. Entretanto, o mercado é extremamente competitivo e as empresas encontram grande dificuldade em reduzir esse consumo, uma vez que o processo produtivo já é otimizado a fim de controlar gastos (inclusive os de combustíveis). Logo, outra alternativa é que essas empresas passem a investir em tecnologias de energia limpa, por mais que o retorno tangível seja de difícil mensuração. Sendo assim, claramente o papel do GIB ganha ainda mais destaque nesse cenário.

Entretanto, em um contexto de referência mundial em investimento verde, o Governo Britânico anunciou, no dia 3 de março de 2016, a privatização do GIB, alegando que essa iniciativa viabiliza a expansão do impacto positivo do banco, além da possibilidade de utilizar o dinheiro para reduzir a dívida pública.

Mas afinal, quais são as prováveis consequências da privatização do GIB?

De acordo com Kevin Smith, presidente independente do GIB, “levar capital privado ao banco é vital para financiar o ambicioso plano de dobrar o tamanho do negócio e expandir o impacto de investimento verde no Reino Unido”. Textos oficiais do GIB afirmam que o Banco terá exatamente os mesmos objetivos verdes, mesmo após a privatização. Esse pode até ser um argumento coerente, vez que o GIB demonstrou ter grande potencial de rentabilidade.

Em contrapartida, de acordo com especialistas, a privatização pode comprometer o viés “verde” do banco, por buscar fomentar o desenvolvimento para financiar projetos mais “fáceis”, de retorno comercial mais rápido, ao invés de projetos inovadores, mais arriscados e de longo-prazo. Com essa preocupação, o comitê de auditoria ambiental recomendou, após o acordo de Paris, que o estado Britânico mantivesse uma participação minoritária para garantir os objetivos do banco, apesar da privatização.

De fato, é extremamente importante entendermos se a estratégia de privatização do GIB possui mesmo um viés de expansão do mercado, pois está intimamente ligado ao nível de importância que o assunto está sendo tratado em nível global. Mas, independente de questões econômicas, o financiamento em economia de baixo carbono não pode parar, e é provável que não pare.

Para que os longos encontros internacionais não sejam em vão e a meta estabelecida no acordo de Paris seja viável em nível global, as propostas iniciais do GIB não podem ser esquecidas. Ao contrário disso devem servir de inspiração para instituições públicas e não públicas se dedicarem em projetos de energia limpa. Quem sabe até essa possível “expansão de mercado para financiamento verde” não seja uma boa desculpa para se investir em tecnologias inovadoras, por mais que essas ações sejam regidas pelo interesse econômico.


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